terça-feira, 27 de julho de 2010

Mães de Acari pedem socorro à imprensa!



A Antígona brasileira:  

Vera de Acari
   Glória Perez*
Agora em julho a chacina de Acari completa 20 anos. E as mães daqueles jovens chacinados ainda lutam em busca de resposta. Nessa foto, a Vera, amiga muito querida, que não está mais entre nos.
Durante muitos anos estivemos juntas, lado a lado, irmãs na dor maior que é a de perder um filho. Eu vi alguma justiça ser feita. Justiça capenga, mas vi: a Vera não viu nenhuma!
Ela teve a filha, Cristiane, assassinada junto com outros jovens da comunidade de Acari, e lutou como lutou Antígona, pelo direito de enterrar seu corpo.
Ninguém que leia nos jornais sobre a chacina, poderá supor de quanta garra e de quanta força essa mulher foi capaz. Pobre, doente, ela vivia em romaria, com as outras mães atingidas, cobrando  uma investigação que nunca foi levada a termo. Chegaram a cavar, com as próprias mãos, cemitérios clandestinos, quando as autoridades se recusaram a fazê-lo.
Assim são elas, as Mães de Acari.
Lembro numa das vezes que vieram jantar aqui em casa, e me contavam, desesperadas, sobre a última descoberta: um sítio onde seus filhos teriam sido atirados aos leões criados ali, de modo a que nada restasse das vítimas
Um dia fui chamada para dar uma palestra sobre violência e mudança de leis para as mulheres que formam o Grupo do Terço, liderado pela Glorinha Severiano Ribeiro. Levei as mães de Acari, para que contassem sua história, e como foi bonito e amoroso o encontro entre aquelas mulheres e as mães da comunidade. Nasceu entre Glorinha e elas um afeto que permanece até hoje.
Essa era a nossa Vera. Se fazia querida onde chegasse. Sábia, generosa, solidária, conquistava a todos com sua fala emocionada e inteligente. Será inesquecivel não só para quem compartilhou de sua luta, mas com certeza para todos os Ministros da Justiça e autoridades que, ao longo desses anos,  a receberam muitas vezes em seu gabinete.
Morreu carente de tudo, sem nenhuma assistência do Estado que tanto lhe devia. Ela não lutou por pensões, não lutou por mais nada: só queria enterrar sua filha -e não conseguiu!
 Glória Perez

Mães de Acari pedem socorro à imprensa!

* Glória Perez

Amanhã, às 11 e 59 da noite, a chacina de Acari completa 20 anos: o crime prescreve, encerram-se as investigações para encontrar os corpos dos chacinados, e os assassinos -se identificados- não poderão mais ser punidos! a não ser que, até esse horário, as investigações sejam reabertas.
Durante 20 anos, o que essas mães guerreiras enfrentaram pelo direito de enterrar seus filhos, é coisa que desafia a imaginação de qualquer um! Mas 20 anos é muito tempo, e há muito tempo elas deixaram de ser notícia, de modo que as gerações mais novas pouco ou nada sabem sobre as mães de Acari.
As que sobreviveram continuaram incansáveis, batendo nas portas das autoridades e clamando pelo apoio da imprensa, para evitar que tudo termine em pizza, como se anuncia! Só a imprensa poderá dar amplitude a esse clamor! Só a imprensa poderá, nesse momento, fazer a diferença, evitando que a saga dessas mães tenha sido vã, com a prescrição do crime!
Pena que elas vivam num país onde revistas que se pretendem sérias, dediquem nessa semana o espaço que deveria ser delas para glamourizar um psicopata assassino, condenado no Tribunal do Juri por homicídio duplamente qualificado, premeditado e torpe.
Há algo de podre no reino da Dinamarca! Mas também é verdade que ainda podemos contar , nesse meio, com gente comprometida com a defesa da justiça e da cidadania!


[Glória Maria Ferrante Perez ,nasceu em  25 de Setembro ,em Rio Branco –Acre, escritora e autora de telenovela.]



_ as mães do acari-


atravessei os olhos das mães do Acari
e os sulcos de suas faces maceradas

atravessei cada um dos seus fantasmas
que pernoitam nos degraus da candelária

atravessei seus gritos que escoam para o nada
e a coragem inútil de seus passos desancorados
no esquálido estandarte de esperanças gastas

rasguei minha fé como os restos de suas mortalhas:
- o cristo que nos vela tem abraços de pedra !

[Conheci as Mães do Acari quando trabalhava no Centro-Presidente Vargas, sempre que saía para o almoço, lá estavam Elas, sofridas, porém incansáveis na sua luta por justiça. Vezes nos degraus da Candelária, outras nas escadarias da Câmara Municipal, cada uma com seu estandarte tecido de sangue: - a foto de seus filhos assassinados, cujos corpos jamais foram encontrados.
Conversava com Elas, ouvia seus clamores, sentia em minhas mãos o peso de suas dores, em minha memória, gravados para sempre os prantos calados que escorriam dos seus olhares.]
  anadeabrãomerij

6 comentários:

  1. É tão revoltante ver o que aconteceu com as mães do Acari. A justiça nada fez por elas. Vinte anos de impunidade. E concordo com Glória Perez: Psicopatas assasinos têm espaço - um grande espaço numa revista de grande circulação, mas as mães do Acari não. É revoltante. É lamentável. É triste.

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  2. Odele querida,
    Criamos uma sociedade de montros, onde o homem devora o homem, e a imprensa em geral, não quer saber da dor dos justos, quer sim , alardear sangue e dor, nao por defesa das vítimas, dos desvalidos, dos oprimidos, dos injustiçados, mas para dar ibope. E estas Mães, para eles, são páginas vencidas. Lamentemos Amiga.Acho que Deus , por vergonha dos monstros que criou, deve andar escondido.
    Bjs, anamerij

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  4. A leitura é com certeza um intrumento de vinculação, de engenhosa sabedoria e capaz de unir pólos distintos. Acho-me representado pelas falas e indagações da escritora e acredito que será um exercício constrangedor me desfazer dessa sensação de omissão e por isso cumplicidade. Li e novamente reli. Poderia pensar na informalidade do ato "ler" e na possibilidade de manter-me anônimo diante da denúncia de tamanho descaso... Penso quantos evitaram o texto, e passaram indiferentes diante da dor e da injustiça clara tão bem descrita nesse artigo.
    Ao ler nos últimos dias a crônica "Réquiem para Sete Meninos de Rua"¹ da escritora mineira Cirene Ferreira Alves pude verificar rica intertextualidade e esse mesmo sentimento de indignação. O que fazer? – pergunto.
    Li e depois de dois dias voltei a ler... Infelizmente, o texto é o mesmo. Pergunto-me o que tenho de fazer para que mudemos Con(textos) como esses. A cada um compete responder...

    Saúdo a artista que trouxe mais verdade e engajamento à literatura brasileira por suas telenovelas.
    Saúdo mil vezes a Revista que decidiu por esta plataforma de contato direto leitor/escritor e que nos possibilitou constante aprendizado e, como agora, um retorno a nossa consciência cidadã.

    1. ALVES, Cirene Ferreira. Saudade em dois tempos - Crônicas de Norah. Viçosa, MG, 2009. 2ªEd.

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  5. "(...) Ela não lutou por pensões, não lutou por mais nada: só queria enterrar sua filha - e não conseguiu!"

    A prescrição deste crime é uma violação dos direitos humanos. Se há um inquérito na Delegacia de Acervo Cartorário da 6 DP (Cidade Nova) que poderia desvendar este crime, devido ao relato de uma testemunha, por que é que a Justiça nada faz pelas Mães de Acari que lutam, há vinte anos, pelo direito de sepultar os seus filhos?! Por que é que as investigações não são reabertas?! A Amnistia Internacional não poderia exigir a intervenção do Ministro da Justiça, neste processo?
    Tenho vergonha de pertencer à espécie humana.

    Maria João Oliveira

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  6. Maria João,
    Fizemos por aqui vários movimentos para ajudar as Mães do Acari, mais de 100.000 assinaturas pedindo justiça por elas, para o Presidente Lula, e os anteriores a ele, idem para ONU, passeatas, apelos junto a OAB , a sociedade se mobilizou, representantes de ONGs, várias entidades, mas nada coseguimos. Elas até hoje semanalmente , fazem seu protesto silencioso e nada, ninguém ouve. A única testemunha permanece sob proteção,em lugar desconhecido. O poder judiciário sequer se manifestou neste tempo todo. Agora o crime caiu em prescrição. Esta é a justiça do Brasil!
    Lamentavelmente, para os ricos os favores da Lei, para os Pobres os seus rigores.
    Um beijo, anamerij

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